No decorrer da história da humanidade, muitas barreiras foram quebradas, tabus desvendados e preconceitos destruídos. Até no sexo, estudos se mostram importantes e necessários para que se construa uma sociedade livre, sem medo de viver, de se entregar ao prazer.

Por Flávia Bastos.

Enxergar o sexo apenas como reprodução sexual é reduzi-lo a uma hipótese repressiva, estudada e analisada por Michel Foucault, que afirmava que a sociedade vive, desde o século 18, uma fase de repressão sexual. Conforme os padrões estabelecidos – e o que essa sociedade aceitava e julgava “dentro dos conformes” –, sempre foi o casal a sentenciar o sexo a, apenas, uma função reprodutora. Durante muitos anos, o sexo foi considerado uma coisa “suja”, “nojenta” e que, para muitos, deveria ser evitado. Manifestações de carinho deveriam ser feitas com um sigilo quase “confidencial”. E, para os ainda mais conservadores, em locais “apropriados”.

Além disso, naquela época, a sociedade burguesa restringia as sexualidades ditas ilegítimas a lugares que podiam “gerar lucros”. O conceito de trabalho era muito explorado e “energias”, portanto, não deveriam ser dispensadas nos prazeres mundanos. Pode-se dizer, então, que o sexo, historicamente, foi reprimido e que, para muitos, a busca do prazer por meio de atividades sexuais era algo condenável. Uma parte da população, no entanto, sonhava com o dia da “liberdade”: de poder falar sobre o tema sem rodeios; e ver, no sexo, uma manifestação de amor ao próximo… pura, sincera e verdadeira.

Segundo Foucault, a partir do século 18, acontece uma proliferação de discursos sobre sexo que acabaram por definir a história da sexualidade humana. O próprio poder incitou essa disseminação de conceitos, por meio da igreja, escola, família e… do consultório médico. Essas instituições não procuravam proibir ou reduzir a prática sexual, mas, sim, o controle do indivíduo e da população. Na obra História da Sexualidade – vol. 1, Michel Foucault escreve: “Dizendo poder, não quero significar ‘o Poder’, como conjunto de instituições e aparelhos garantidores da sujeição dos cidadãos em um Estado determinado. (…) Não o entendo como um sistema geral de dominação exercida por um elemento ou grupo sobre outro. (…) Deve-se compreender o poder, primeiro, como a multiplicidade de correlações de força imanentes ao domínio onde se exercem; (…) enfim, as estratégias em que se originam e cujo esboço geral ou cristalização institucional toma corpo (…) nas hegemonias sociais.”

Michel Foucault
Faça Amor Não Faça Guerra, movimento anos 60
Cartaz de bordel do século 18

 

O resultado de uma sociedade reprimida em seus impulsos mais naturais veio como uma avalanche de afetações, inclusive, até os dias atuais, em uma grande parcela de mulheres. Preconceitos, vergonha e outros sentimentos vieram a contribuir para relacionamentos amorosos repletos de problemas. Tanto que se tornou corriqueiro, psicólogos serem pagos para “ouvirem” sobre a vida sexual de outras pessoas. Com o desafio superado – de falar livremente sobre o assunto –, pedagogos e psicanalistas se viram com um novo dilema: o de apenas vigiar e reprimir essas manifestações da libido. Funcionavam, na verdade, como mecanismos de incitação: prazer e poder. Ainda, segundo Foucault: “Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espia, investiga, revela; prazer de escapar desse poder. Poder que se deixa invadir pelo prazer a que persegue. Poder que se afirma no prazer de se mostrar, de escandalizar, de resistir.”

John Lennon e Yoko Onu

A era da repressão pode ter prejudicado muitos casais. Mas, Foucault filosofa sobre a “hipótese repressiva” ao se referir a um falso moralismo e aproveita para interrogar a hipocrisia da sociedade. “A questão é contra nós mesmos que somos reprimidos.” A partir daí, ele propõe uma série de questões: a repressão sexual é mesmo uma evidência histórica? Serão os meios que se utiliza – e o poder – repressivos também? Será que são as formas discretas do poder?

O estudioso do tema questionava tal repressão. Foi com ele que veio a observação para a reflexão de que tal teoria, a da proibição, a da repressão e o do segredo se mostra negativa e que, ao mesmo tempo, associa tal comportamento com a técnica do poder e a vontade de saber. Segundo Foucault, a tendência seria de que, a partir do século 18, um discurso muito mais aberto sobre o tema sexo seria despertado e oferecido para a sociedade. Assim, expôs um questionador argumento sobre a verdade nos relacionamentos: “O que há de errado em uma atitude sexual resolvida e praticada por todos?”

A discussão sobre o conceito “liberdade” foi um fator decisivo para encarar a sexualidade como uma prática livre. Somente depois de “superar preconceitos” e “quebrar tabus” foi que o direito de proceder conforme se desejava, aos poucos, apesar de ainda não definitivamente, viria a ser conquistado. Outra definição que viria a contribuir para a mudança de paradigmas foi a ideia de conceituar o Direito. Já que questioná-lo é repensar a própria liberdade; fazer e agir, o Direito é viver essa liberdade. Esse novo conceito viria a transformar o entendimento e ampliar, então, a visão da sociedade.

LIBERDADE AMPLA, GERAL E IRRESTRITA
Temos o direito, portanto, de nascer, crescer, estudar, comer, morar, morrer. E isso nos é dado simplesmente pelo fato de existirmos, estarmos vivos – porém, isso não se estendia à liberdade de nos expressarmos sentimentalmente, sexualmente. Foi a partir desse questionamento, ocorrido em meados dos anos 60, que a liberdade sexual passou a ser enxergada com mais naturalidade.

O que parecia ser terrivelmente condenado, escondido – e guardado entre quatro paredes –, estava prestes a ser liberado. Parecia chegar, assim, com o movimento “Faça Amor e Não Faça Guerra”, um novo conceito de encarar a sexualidade no mundo. Se relacionar e descobrir no sexo o prazer, era, finalmente, um direito de todos.

 

“O movimento ‘Faça Amor e Não Faça Guerra’, trouxe um novo conceito de encarar a sexualidade. Se relacionar e descobrir no sexo o prazer, era, finalmente, um direito de todos.”

 

O direito adquirido, no entanto, trouxe uma importante questão associada e correlacionada diretamente: a responsabilidade. Tal prerrogativa envolvia questões relacionadas ao controle de natalidade, gravidez indesejada, principalmente na adolescência, aumento das doenças sexualmente transmissíveis… e, portanto, sexo protegido em função dessas preocupações.


Leila Diniz

 

RECEIO DOS PODEROSOS
Segundo a historiadora Susana Madjaford, ao fazermos uma viagem através dos tempos, até as décadas de 60 e 70, veremos que o simples fato de se pensar na palavra “liberdade”, já era sinal de alerta para os donos do poder. “As pessoas tentavam, por meio de suas canções e poesias, extravasar o seu ‘subjugado’ pensamento. As palavras de protesto sofriam mutações, e chegavam até nós, já que a ação da censura impedia que a população tivesse conhecimento daquilo que realmente acontecia, passando, sempre, a ideia de uma ‘paz tranquila’”, acredita Susana.

“A regularização e a liberação do casamento gay será um largo passo contra a discriminação dos homossexuais – classe cada vez mais representativa no Brasil e no mundo.”

Tais ameaças e manifestações públicas como as que já ocorreram na história do mundo, segundo especialistas, sem dúvida ajudam na transformação e progresso de um país. Mas, infelizmente, é ingenuidade acreditar que mesmo com a liberdade de pensamentos podemos colocá-los em prática. Podemos até falar, defender argumentos, mas não fazer o que falamos. Qual o verdadeiro sentido da liberdade, então? Um sonho distante ou utopia? O fato é que muito já foi alcançada, mas a busca ainda segue.

 

DITADURA MILITAR
Os jovens daquela época reivindicavam com toda força a redemocratização do país. De fato, o poder estava começando a ser diluído entre a comunidade. Pediam o fim do imperialismo, queriam a liberdade de expressão, queriam ser ouvidos: bradavam pela liberdade sexual, paz e amor, e pela defesa do patrimônio nacional. Em meio às suas letras de música, poesias e discursos, buscavam, acima de tudo, a liberdade – e tal busca viria a ser incessante.

Ainda hoje há grupos organizados que saem às ruas para lutar por direitos, como os homossexuais, negros e mulheres. A aceitação de questões relacionadas ao prazer, amor e sexo levou séculos para, aos poucos, ser admitida na sociedade e encarada com naturalidade – com restrições ao homossexualismo.

O homossexualismo, ainda hoje, é considerado “tabu”. Para muitos, cujo olhar sobre o tema é carregado de preconceito, o homossexualismo é uma anormalidade. O fato de duas pessoas do mesmo sexo se envolver afetivamente causa diferentes manifestações manifestações de sentimentos. No Brasil, tal união vem sendo revista no sentido de que haja uma regularização, inclusive, no código civil – em que o casamento caminha para ser definido “entre duas pessoas” e não mais entre um homem e uma mulher conforme está nas leis atuais.

Tal mudança teve início depois que um casal de mulheres no Sul do país, que pretendia se casar e formar uma família com direitos iguais a de um casal de heterossexuais, detonou um processo sem volta. A solicitação teve a atenção do Congresso que prevê mudanças na legislação. Sendo assim, acredita-se que a regularização e a liberação do casamento gay será um largo passo contra a discriminação dos homossexuais – classe cada vez mais representativa no Brasil e no mundo.


Dois ícones sexuais do começo do séc. 20, a morena pin-up Bettie Page (foto 1) e a ambiciosa loira Marilyn Monroe (foto 2)

 

NA ANTIGUIDADE
Por mais incrível que possa parecer, na Antiguidade a questão era encarada com muito mais naturalidade e, aparentemente, nem existia um conceito definido de homossexualidade. Para os gregos antigos, o ato sexual era positivo. Já os cristãos o associavam ao mal e passaram a excluir uma série de atitudes, temendo encorajar um aumento significativo da infidelidade na sociedade: apoiar o homossexualismo, por exemplo, era como ir contra a castidade.

Já na Grécia e na Roma antiga, era absolutamente normal um homem mais velho ter relações sexuais com um mais jovem. O filósofo grego Sócrates (469-399), adepto do amor homossexual, pregava que o coito anal era a melhor forma de inspiração – e o sexo heterossexual, por sua vez, servia apenas para procriar.

UM POUCO DE LITERATURA NA HISTÓRIA DA TRANSFORMAÇÃO SEXUAL

Um casal que revolucionou e modernizou o conceito sexual na época da repressão – nas décadas de 20 e 30 – foi o escritor Jean Paul Sartre e sua esposa, Simone de Beauvoir(fotos ao lado). Eles acreditavam em um relacionamento livre e aberto. Para o casal francês, a confiança entre eles era o mais importante sentimento que os mantinham juntos. Sartre tinha outras namoradas e o combinado entre o casal é que a verdade sempre deveria ser dita.

Simone de Beauvoir, porém, não convencia muito ao dizer que não sentia ciúmes de seu marido. Ela também mantinha seus casos extraconjugais. Teria diversos namorados também, segundo cartas descobertas após sua morte. Mesmo assim, o casal ficou junto por longos 50 anos. Ao que diziam, Sartre dependia emocionalmente e psicologicamente de Simone de Beauvoir. Em seus últimos anos de vida, estava totalmente entregue a anfetaminas e era dependente do álcool.

Era um casal polêmico para sua geração e que, sem dúvida, escolheu um caminho “perigoso” e que, a qualquer momento, poderiam magoar a si próprios e mais alguém. Estavam vivendo antecipadamente a liberdade sexual, que viria a ser exigida por diversos jovens da Geração Paz e Amor – um exemplo da manifestação do amor livre. Em uma entrevista com Hazel Rowley, amiga do casal e autora do livro Tête-à-Tête, são reveladas algumas particularidades de Sartre e Beauvoir e os legados que o polêmico casal teria deixado para os novos relacionamentos. Para a autora, eles foram um modelo de generosidade, em que um nunca impedia o outro em suas necessidades e vontades sexuais. O casal existencialista acreditava na força de vontade para lutar contra certas emoções e tendências negativas, como o ciúmes a desconfiança e a baixa autoestima.

Esse modelo de relacionamento, nos dias atuais, mostra-se inadequado para alguns. “Estamos vivendo um momento de libertação e não liberação sexual, manter um relacionamento desgastado com o tempo e envolto a traições não é mais o que os casais buscam”, acredita a psicóloga e psicoterapeuta Cris Ferrer. Manter casos extraconjugais não é característica de casais novos – ou que estejam juntos há mais tempo. Mas isso parece ser uma constante na história dos relacionamentos e da humanidade. O adultério existe há séculos e alguns apenas o institucionalizam. Em contrapartida, alguns se divorciam. O divórcio, que foi instituído oficialmente no Brasil em junho de 1977, tornou-se uma prática tão comum que, entre os brasileiros, cresceu 200% desde 2008. Um casamento dura, em média, dez anos e, em 70% dos casos, quem pede o divórcio é a mulher.

Em outros países, como na Arábia, por exemplo, é considerada comum a união entre um homem e várias mulheres – uma questão cultural. Algumas barreiras, tabus e preconceitos estão perto de chegarem ao fim, mas, ao que parece, aos poucos, a busca pelo prazer vem sendo considerada um ideal almejado por muitos. Grande passo.

 

O Dia do Orgulho Gay: pedido colorido de PAZ

Um evento importante, que constata o advento da liberdade de expressão da sexualidade, é a manifestação que ocorre em diversos países: a parada gay. Com a proposta de defender, de forma justa e igualitária, as suas preferências, milhares de participantes pedem respeito e fazem também um apelo de “não” ao preconceito.

O movimento teve início em 28 de junho de 1969 (foto 2)– orgulhosamente dedicado aos homossexuais e conhecido como “O Dia do Orgulho Gay”. A criação de uma data dedicada aos gays se deu por causa da forte agressão sofrida por um grupo de lésbicas, gays e travestis, no bar Stonewall, em Village, Nova Iorque, na década de 60.

Como sempre acontecia, a polícia dava constantes batidas no local – de clientela homossexual – e, a pretexto de manter a ordem, espancavam os frequentadores. Nesse dia, os homossexuais resolveram resistir e expulsaram os policiais à força. Muita confusão ainda estava por vir, até a polícia resolver fechar as portas do bar. Uma das frequentadoras, revoltada, ateou fogo no estabelecimento e o grupo só tranquilizou quando conseguiu, do prefeito, um pedido de “não à violência”.

Certos de que não poderiam contar com o apoio da sociedade, resolvem criar, a partir daquele momento, um dia em que pudessem ser ouvidos quanto aos seus direitos, reivindicações, pedidos de paz, além de prestar homenagens às vítimas de doenças sexualmente transmissíveis, principalmente a AIDS.

O movimento tornou-se tão forte que, em pouco tempo, diversas outras cidades também aderiram. Os números são grandiosos: a 32ª edição da Parada Gay de Nova Iorque, em junho último, contou com 250 mil homossexuais e simpatizantes. Segundo os organizadores, mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas para aplaudir o movimento e fizeram 1 minuto de silêncio pelos pessoas mortas vítimas da AIDS.

Em Toronto, Canadá, a Parada Gay que aconteceu também em junho, teve a participação de milhares de pessoas. Pela primeira vez, em 28 anos, o movimento contou com a participação de um grupo de militares que marchou pelas ruas do centro da cidade uniformizado, mostrando que o preconceito, aos poucos, vai diminuindo.

A Parada do Orgulho LGBT(foto 1), de São Paulo, é considerada a maior do mundo. A última edição, ocorrida em maio de 2011, reuniu mais de três milhões de pessoas. Mas, apesar de o país apresentar mais de 200 grupos gays funcionando ativamente, o número de assassinatos e agressões contra os homossexuais ainda assusta. Segundo o Relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), 260 homossexuais e travestis foram assassinados em 2009, em todo o país. Ainda segundo o GGB, um homossexual é morto a cada 36 horas e esse tipo de crime aumentou 113% nos últimos cinco anos.

Fonte: Portal Ciencia e Vida