Quando a equipe da Morena Filmes chegou na sala de imprensa da Erotika Fair em maio de 2009, nunca poderia imaginar a proporção do filme. Sempre muito assediada pela imprensa durante a feira e, naquela edição em especial, em que estávamos com corredores e stands superlotados, eu achava que seria mais um documentário entre tantos outros que nos ajudaram a projetar o mercado erótico nos meios acadêmicos e circuitos cults.
Chamei o organizador Evaldo Shiroma para atendê-los. Conversou longamente com eles e mostrou toda a feira. No dia seguinte, ele me informou muito contente que então teríamos finalmente um longa metragem e que o pano de fundo do roteiro seria o segmento erótico.
Um ano depois, atendendo a várias solicitações de amigos e simpatizantes do meu trabalho, num domingo de verão, sento numa sala de cinema da Augusta para assistir “De Pernas pro Ar”. E me surpreendo com a sensibilidade dos roteiristas que conseguiram colorir a trama com as nuances mais íntimas impressas no cotidiano de quem trabalho no setor erótico.
A história que poderia ser mais uma comédia romântica de desencontros amorosos resultantes da moderna e dura tripla jornada feminina ganha humor e peso quando mostra o empreendedorismo de duas personagens Alice (Ingrid Guimarães) e Marcela (Maria Paula) que fazem da sex shop carioca Sex Delícia um sucesso de vendas diretas.
A relação com os produtos, suas sensações, as reuniões de mulheres encantam Alice, profissional de Marketing que investe seu potencial na loja da vizinha Marcela. Esse “encanto” está cada vez mais presente nos olhos de profissionais liberais que querem desafios e encaram o mercado erótico como um vasto campo fértil de oportunidades. Também está lá no filme, o lado arredio dos lojistas a essa nova onda de prestação de serviços especializados: Marcela, a princípio, resiste às idéias de Alice.
No caminho do sucesso dessa dupla estão os percalços da vida pessoal: Marcela, mulher independente e muito bonita não engata relacionamentos sérios por causa do preconceito masculino. Uma fala dela reflete a insegurança dos homens em lidar com mulheres que “sabem mais do que eles na cama”. Do outro lado, Alice aprende com seu novo trabalho a se descobrir e a se dedicar mais ao marido com que está em crise.
“De Pernas para o ar” ainda teve a incrível delicadeza de inserir os produtos eróticos de forma saudável e divertida no dia a dia das personagens, como o jogo de porcelana erótica no chá entre amigas, ou mesmo na calcinha vibratória que reage ao som ambiente que Alice esquece de tirar para ver a final do futebol do filho na escola.
O ponto alto do roteiro se concentra justamente quando a Sex Delícia participa da Erotika Fair, reproduzida nos estúdios de cinema de Paulínia com assistência de alguns empresários do setor e do próprio Shiroma. Estão lá os elementos que mais nos remete ao evento: as cores vermelha e preta, o lustre de camisinhas coloridas (que fez muito sucesso na exposição de arte da Erotika de abril de 2010), e inclusive as estratégias agressivas de alguns expositores: a mãe de Alice, então membro da equipe Sex Delicia derruba o show de Morgana Dark para a entrada no palco de forma surpreendente, triunfal e coreografada das revendedoras vestidas de lilás com suas malas vermelhas de rodinhas cheias de produtos sensuais.
Quando a arte imita a vida, é sinal de que a vida é tão deslumbrante que conquista a arte. Um longa metragem nacional com apoio da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro e encenado por um competente e jovem elenco global coroa a visibilidade do mercado erótico brasileiro depois de 40 anos de existência. Saímos do gueto. O comportamento de consumo de produtos sensuais mudou a ponto de estar presente no cinema e na novela. Para o mercado, “De Pernas pro Ar” é muito mais do que espelho e realização. É antes de tudo, uma amostra de como dar certo: seguir os conselhos de Alice que diz que “não vende produtos e nem brinquedos e sim sonhos”. Vender sonhos é mais difícil do que parece. É preciso estrutura profissional e comercial. Investimento racional e calculado. Dedicação e pique.
Julianna Santos
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