Lorena Pacheco Vieira Redação Mais Comunidade
Foto: Dênio Simões Segundo o ginecologista João Carlos, do HRAN, é muito raro o vírus ser transmitido senão pelo sexo. O assunto é delicado. Se culturalmente nossa sociedade mal fala na sexualidade das crianças, quem dirá discutir sobre doenças sexualmente transmissíveis na tenra idade. Todavia, o tema não pode passar despercebido, principalmente com relação aos casos de HPV (Papiloma Humano), que tem 90% de chance de serem resultado de abuso sexual. Por esse motivo, temas como o HPV na infância, gravidez na adolescência, puberdade precoce, entre outro, serão debatidos no XI Congresso de Obstetrícia e Ginecologia da Infância e Adolescência, que acontece entre os dias 11 e 14 de agosto, na sede da AMBr.
A doença é no mínimo curiosa. Composta por mais de cem tipos de vírus diferentes, o HPV é uma das DST’s mais comuns do mundo – uma em cada cinco mulheres é portadora. No Brasil, o Ministério da Saúde registra 137 mil novos casos a cada ano. A única forma visível da doença é quando aparecem verrugas na genitália, também conhecidas como “crista de galo”. Contudo, o problema maior é quando o vírus evolui para o câncer de colo de útero, uma das maiores causas de morte da mulher – cerca de 230 mil morrem por ano em todo planeta.
No caso da criança é ainda mais complicado. De acordo com o ginecologista e obstetra João Carlos de Araújo, do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), é natural o HPV ser associado a quem já está em idade reprodutiva, quando a doença é detectada em crianças é quase certo que o menor foi vítima de abuso. “É muito raro o vírus ser transmitido se não pelo sexo, casos em que a transmissão ocorre pelo compartilhamento de banheiros, toalhas e roupas íntimas acontecem, mas são muito raros”, explica.
A recomendação é sempre procurar orientação médica. Após exames infectológicos que confirmem a presença do vírus do HPV na criança, o profissional é orientado a observar sinais que indiquem a incidência do abuso. “O primeiro aspecto que deve ser observado é o comportamento, a criança fica propensa ao choro, não quer ir à escola e se torna mais agressiva e acanhada. Se além disso houver indícios físicos como lesões perianais e vaginais, corrimento e coceira, o médico deve encaminhar a ocorrência e o hospital é obrigado a emitir uma notificação à Delegacia da Criança e do Adolescente para início da investigação criminal”, esclarece o médico José Domingues dos Santos Jr, da Sociedade Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia da Infância e Adolescência.
Esclarecido se houve ou não abuso sexual, e tendo sempre acompanhamento psicológico, a preocupação maior com a criança portadora do vírus HPV é com relação ao câncer de colo do útero, que pode se desenvolver com o passar dos anos. Para tanto, recomenda-se a aplicação da vacina contra o HPV. Trata-se de um medicamento relativamente novo no Brasil que previne contra o tipo 16, o mais associado ao surgimento do câncer. A vacina é composta por três dosagens e estima-se que sua eficácia seja de 95%. Apesar de ela ter sido autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a rede pública ainda não oferece o medicamento devido principalmente a questões financeiras – seu custo pode chegar a R$ 1.200.
Mas a vacina é polêmica. Como cada vez mais as pessoas estão iniciando sua vida sexual mais cedo, atualmente os médicos indicam a aplicação já na infância, a partir dos 9 anos de idade. Uma recomendação um tanto fora do comum para a dona de casa Edilene Silva, mãe da pequena Maria Cláudia. Segundo ela, pensar na vida sexual que sua filha terá mais tarde ainda é um tanto prematuro e estranho. “Na verdade nunca soube dessa vacina e acho um pouco cedo para uma criança de oito anos como Cláudia tomar um medicamento assim, mas, se não fosse tão cara, autorizaria daqui a alguns anos”, afirma.
A resistência em vacinar crianças contra DST’s é um comportamento comum em nossa sociedade, apesar das modernidades, o sexo, e principalmente o sexo relacionado à infância, ainda são temas tabus. Para José Domingues, diferentemente da vacina contra o sarampo e a rubéola, por exemplo, a vacina contra o HPV é diretamente relacionada ao sexo. “Os pais tem dificuldades em aceitar a vacina, implicitamente eles entendem que seria um tipo de estímulo para a prática sexual. Mas em caso de DST’s as resistências culturais devem ser postas de lado. A vacina é preventiva, por isso é indicada para pessoas que ainda não iniciaram sua vida sexual, além de ser uma garantia no caso de abuso”.
Fonte: o Norte
Related posts: